quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Segundo

As histórias penetradas nos acontecimentos breves: o que poderia ser e não foi, coincidentemente. Os infinitos acasos que se camuflam nas conexões, às vezes tênues, às vezes sofríveis, às vezes rejeitadas na recusa de permanecer e aguardar, pois eu troco o olhar na rua enquanto ela passa, tirando uma pequena folha que se embrenhou nos cabelos e fazia cócegas, e há uma história em toda troca, mesmo essa, de uma frase, os pequenos e indizíveis momentos, esquecidos antes de se tornarem reais, o que não aconteceu, o que não foi, mas não há resignação, não há raiva na superfície intacta do tempo, não há um só arranhão no destino. Por menos eu me encheria do mundo, por muito menos eu acreditaria na plenitude das coisas belas, teus dedos tamborilando na mesa, piscada insistente porque algo entrou nos olhos, e ah, teus olhos!, esses olhos dos outros que dizem tanto, e tão rápido. Eu sentei ao teu lado e sorri, ao pedir licença, passei a viagem inteira buscando um triz, mesmo uma fresta na porta entreaberta que dava pra escuridão das possibilidades, porque existe, tu sabes, sim?, existe uma probabilidade quântica, infinitesimal, de que nos liguemos de modo eterno. Mas tu levantas, fechando a cortina de seda pura na janela sob meu olhar, tu te esvais pelas esquinas e eu ainda assim sou só sorriso, vou rindo pelo dia afora…

Ver

Eu te vejo. Além das coisas que temos visto ou sentido, além do que sonhamos ou achamos que fosse acontecer no futuro, além disso, do que inventamos. Eu vejo o que tu escondes. O olhar que escondes das ruas, das pessoas que passam ao teu lado, ou de ti mesmo, ao te ver no espelho. Sabemos que nada é muito fácil, mas apelar para a meticulosidade do difícil só torna tudo ainda mais fatigante. Eu te vi menino, repreendido por ti mesmo, no canto, ignorante. Eu vi teu rosto vermelho, e tua vontade de chorar, de correr e de que algo parasse tudo ao teu redor. Tua inocência, tua ingenuidade branca de menino, e todo o tempo que se prolongava, com agonia, quando também os outros te viam. Entender o destino das coisas frágeis é entender a ti mesmo, te encontrar acima do te esconder. Como uma sina, um destino de provações, eu tenho visto o tu além do ti. Tenho visto e vivido casa assombro e incompreensão de tua parte, cada pequeno medo delineando o que sentes, ou o que falas, e o que sentes de novo. Hoje colhes os amargos frutos arroxeados da diferença e da intolerância, na mesma medida que te assustas com a beleza enraizada no mundo e no fadário de ser. Teu destino é entender pouco a pouco e sonhar com coisas tolas e continuar a não entender o vasto mundo que comprime os ouvidos. Eu te vi, eu te vejo, eu te verei.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Incenso

E um cheiro, essa tua pele tinha,
e meus lábios, lambendo o cheio eu tava:
e meus jogos, com os dedos brincava,
e tua face, tateando eu vinha.

Mas o cheiro, que voava eu sentia,
meio pó, teu cheiro subia;
farejando, domado eu tremia,
porque o corpo, o corpo rendia.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Papelaria

Entro na papelaria e peço três cópias de uma carta, escrita por minhas mãos, pra atendente que masca chicletes vendo o finzinho do jornal da tarde na gorda tv suspensa num canto. É minha carta de suicídio, sabe, mas ela nem vê, porque o olho vê, mas não repara, o papel dançando nos dedos rápidos, encaixando o a quatro na velha xerox e me olhando rápido, mas não repara, está cega como todos nós. Meu rosto, desafiando que me pergunte algo, que tenha visto e percebido, vou sustentando um educado interesse nesse rosto, segurando um risinho porque, vá lá, seria um bocado engraçado se ela tivesse reparado que era minha carta de suicídio. Será que bolei todo o teatro tentando um motivo para que me adiassem o suntuoso encontro?, mas ela volta os olhos para o papel, e depois volta pra mim, e depois nada. Diz, vai logo, fala alguma coisa, mas o que penso continua aqui, confinado, indecifrável pra moreninha de alça de sutiã aparecendo, só esperando as seis pra ir embora, talvez se encontre com o Marquinhos nas barraquinhas da Rocinha pra tomar um sorvete, como poderia sequer entender a complexidade semântica voluntária da minha carta de suicídio, em que tentei confinar meu mundo em vinte e nove linhas? Fecha a tampa da máquina, vai apertando um botão duas vezes (escurece a cópia porque escrevi o original à lápis), vai apertando outro botão duas vezes (vai mudar a quantidade, primeiro dois, segundo três). O feixe de luz vai atravessando o papel, o que é realmente impróprio, porque é uma luz que se lança às minhas palavras, mas não há nada de transcendente nisso tudo, porque isso aqui é a vida de verdade e não qualquer coisa poetizada, e essa poesia me dá ojeriza porque vai do nada a lugar algum. Não poderia haver poesia nisso, poderia? Moreninha vai batucando os dedinhos finos de unhas esmaltadas da quarta passada e nós dois escutamos a mágica da máquina deslizando três cópias pela bandeja, o pó preto grudando no papel, mas sabia que se você rasgar rápido dá pra ver o pó no ar, se desprendendo dele? Ela nem me olha e vai pedindo sessenta centavos, estendendo os papéis pra mim, sentando no banquinho no canto, nem aí. Eu só tenho cinquenta, o que me parece patético, porque até pra levar minhas últimas palavras blá blá blá vou ter de dar jeitinhos. Eles vão tentando fazer com que eu pense mais um pouquinho, com esses acasos, e vão tornando meu suicídio algo infantil, quando tudo o que eu queria era só subir aquele prédio azulado da rio branco e adeus, ora que chatice! Estendo a mão fechada com o duque pra ela, ela desgruda da tv e estende a mãozinha, e eu jogo o duque lá dentro, ela fecha a mão, com a minha ainda presa, seus dedos nos meus, poucos segundos de dedos nos dela, meu mindinho no seu polegar, seu indicador no meu médio, e eu vou ficando lá, aquele comichão no fundo do cerebelo, que vai subindo pro hipocampo, vão neurônios se ligando, e eu acho que tem algo de auto-conservação involuntária nisso, sabe?, como se cada pedacinho do meu corpo estivesse tentando impedir, mas o que é isso, meu deus, somos nós colônias? A mão dela se vai e abre, vê o duque, e eu desejo ardentemente que reclame, oh céus! como meu desejo se funde no meu sangue, vai inundando todo meu corpo, quase tremo desejando que fale algo. Eu olho os olhos dela, que olham os meus, mas não há nada além desse contato, e vou virando as costas, três papéis nas mãos, vou sentindo o sol amar no meu rosto, o sol vai secando a minha chuva, mas evapora tão devagar que o tempo vai ser suficiente, e há tanta cor e há tanto movimento na rua ensolarada que me dói ter de morrer hoje.

domingo, 21 de abril de 2013

Silêncio

O eco, fulminante, repetindo o vazio, sibilando como uma serpente,
astutamente silenciosa,
sorrindo baixinho.
Ela engana o coração dos homens,
os faz envelhecer como uma filha do tempo,
é a velha estrela da manhã,
solícita aos peitos abertos,
nus em sua essência,
e acaricia os inocentes cabelos dos que ousam ser humanos com sua pele lisa e ondulosa,
abraçando fortemente,
zunindo perto do vento,
as íris seduzidas pelas almas
sem
destino
ou
redenção.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Vertigem


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Desalinhar

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Segundas-feiras

Três dedos, entrelaçados em teus cabelos negros, adentrando pensamentos, encaracolando as falanges insensíveis que tocam tua própria insensibilidade. O vórtice abandonado em teu peito inexplicavelmente plácido, palavras encenadas sussurradas, e teus olhos fechados, órbitas giratórias encontrando e desvendando, transbordando segredo. Tua envelhecida carne salgada, as frágeis mãos em teu corpo, um pouco de ti adentrando em mim, muito pouco, e ainda assim um pouco. Sinédoque das tuas pífias ações, confortando a infantilidade satírica e eloquente, que esconde no discurso a totalidade da incompreensão. A janela cintila, lá fora há luz, a pálida luz da rua, e ainda assim a mesma luz que preenche a galáxia, incandescendo os átomos perenes. Eu tenho visto teu rosto, distante mesmo colado ao meu. Teu rosto que não assimila a quântica dos sentimentos que pulsam minhas carnes frágeis. O letreiro luminoso anuncia que vá, que não olhe para trás, que não se aflija pelo pouco, o muito pouco, o resíduo que, grudado em minhas entranhas, grita desesperadamente.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Suplicantes

Eu assisti ao início da tempestade, castanhas nuvens furiosas desenrolando o céu em espirais que invadem a terra ultrajada. Eu nadei os rios atmosféricos enquanto a chuva castigava a terra, socando seus sulcos com a força de mil deuses. Anjos de olhos de harpias cantavam o fim das promessas enquanto os homens gritavam lá embaixo. Tomados de precaução, vi os pequenos se esconderem em cavernas úmidas, suando os últimos suores e recitando seus últimos poemas sofridos. As medusas ressurgiram dos túmulos em que foram enterradas, e as quimeras dançam sobre cabeças roliças do desfiladeiro dos suicidas. O ciborgue sensível não chega a nenhuma conclusão, a não ser que a única coisa que o diferencia de seus primos não vivos é a corpo em cópia. Mulheres arrancam os cabelos molhados e abandonam seus corpos nas estradas cheias de carros vazios. Uma música toca estridente, mas não há ninguém para ouvir e entender. Pássaros gigantes caçam bebês esquecidos, mordendo sua carne branca sob protestos inúteis das almas aterrorizadas com uma vingança tão justa. Eu sou o viajante preso ao tempo, incapaz de tocar a matéria que tanto deseja e vê desaparecer sob acidez e covardia. Todos os ventos transam nas nuvens, gozando gotas grossas cinzentas perenes que fecundam rochas estéreis. Eu tomei um corpo abandonado nos braços e o levei até o arranja-céu mais alto da megalópole, beijando seus lábios arroxeados e inflando a vida nas veias apodrecidas. Os pêlos nos braços se eriçam quando a matéria enlouquecida penetra a carne que se recusa a voltar. Seus olhos se abrem diante dos meus e sussurro que o amo, antes de cair sobre o peito arfante daquele que escolhi sofrer o apocalipse das consciências em meu lugar.

sábado, 2 de março de 2013

Fugitivos


Por que fugimos? Fugimos no frio de um coração quente, mas menos que vivo, muito menos que visível, um coração esquecido e retorcido. Não há culpa ou arrependimento, não há nenhum sentimento ruim que engasgue. Há apenas a incompreensão, o olhar distante no outro lado da rua, as pupilas se estreitando para ver o longe e esquecer o perto, esse perto tão risonho e propenso ao lirismo que, diabos esse coração!, esse coração só matraqueia e enlouquece, esse mínimo que cala. Adormeço de incompreensão, um doce estado de torpor que impede que pensemos mais. O pensamento nos mata, nos mata aos poucos e com muita dor. Uma dor de pensar, neurônios queimando ao se tocarem, porque já estão perdidos e esqueceram que não podem se tocar. Esquecemos que não podemos nos tocar, e reconhecemos o choque, que atrai e atrai. É noite em meus pensamentos, é dia nos teus, e teu dia zomba da minha noite, que não se ilumina nem com o brilho de mil sóis. Não desisto porque a desistência é tão incompreensível quanto a resistência. Fico sentado entre o corredor e o vento, esse vento que me chama, sorrindo entre minhas orelhas. Já é tudo tão tardio, meu bem, tão tardio que é como se tivéssemos perdido sem ao menos saber que precisaríamos lutar. Vê? É incompreensão e infantilidade, cobertas pelo véu do disfarce, porque não admitirei as coisas em hipótese alguma. Não há chance de que eles me façam admitir ou me resignar. Me enterro e me consumo, mas me calo. Minhas palavras permanecerão onde estão, onde quer que estejam. Só continuo porque sei que, quando tiver sumido, uma garota estúpida e enamorada pelo primo mais velho tomará a memória nas mãos e passará uma tarde rindo de mim, encapsulada no fogo elétrico que aquece sem queimar. Fugitiva dos outros, rirá de como éramos tolos e mesquinhos, nos importávamos somente conosco, enquanto viver fora da rede parecia tão instigante. Seu passaporte a chama, é noite, e ela se sente triste de viver longe do real. Para eles, o real está acima de qualquer discussão filosófica, o real é aquilo que está longe e já apodrece porque, imersos, não sabemos diferenciar o que tocamos e o que pensamos que tocamos.

 
 
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