O estúdio estava quente demais. Pela janela escancarada, como se implorasse por uma brisa fresca, se viam dois prédios gêmeos, feios e velhos, e um resto de azul vivo de céu. Vivien admirava um casal que passava pela rua enquanto o suor se proliferava pela sua nuca, seios, axila e virilha. Era quente e salgado, escorria pelas suas costas e chegava a arrepiá-la. Apenas imaginava que fosse salgado, porque jamais, em toda sua vida, teria coragem de pôr uma gota de suor na boca. Imaginava, a Vivien, que não haveria no mundo algo mais horrendo do que uma gota de suor. O calor era insuportável, até mesmo para a mulher de litoral que aguardava a entrada do artista que a pintaria esta tarde.
Não fazia por prazer. Quer dizer, pelo menos não no começo. Quando a mãe ficou doente, Vivien encontrou no hospital um rapaz que a mostraria a beleza escondida no dinheiro ganho como modelo.
Havia um ventilador no teto e uma natureza morta na parede azul-turquesa. Sentado no banco, olhando para baixo, ele tragava um paupérrimo cigarro de esquina, e não desviou o olhar quando ela entrou. Vivien de fato pensava que não haveria homem mais lindo que aquele que arriscasse os pulmões por um cigarro barato. Não suportava os charutos que os garanhões das boates parisienses fumavam. Ela mesma, quando experimentou o primeiro cigarro, detestou pensar que pudesse existir algum homem que ousasse fumar aquilo. Sentia-o tão feminino, o cigarro industrial, que um homem jamais poderia colocá-lo na boca. Assim que conhecia algum senhor, sua primeira indagação era a mesma.
- Fuma cigarros vagabundos?
Eram venenos de rato, os cigarros vagabundos. Mas ela realmente acreditava que se um homem tivesse que morrer de câncer de pulmão, que fosse pelo mais barato, nojento e sujo tabaco. [...]
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Escrito, e só.
Até a próxima, e tudo.
