quarta-feira, 10 de junho de 2009

Que tu ates a ti mesma como quem ata o último fio de sanidade

Ao meu lado (eu, perdido e sem rumo) estão duas mulheres e uma criança. Na verdade, talvez minha mente lógica esteja em dificuldades para encontrar meu corpo. Por outro lado, talvez eu só esteja sonolento ao mundo, como a brisa carregada de serragem que me atinge a cada novo carro que vejo passar.
Existe algo, inconsistente e impalpável, que talvez me ligue àquela mulher (uma outra, não tocável por mim). No fundo, a minha visão de mundo enxerga a harmonia e graça em algo tão exponencialmente tangível como o sofrimento (o meu e o de qualquer um), num exercício de (re) afirmação de minhas convicções, e não consiga identificar beleza em situações comumentes como amar (ou o permitir-se fazê-lo pelo próprio prazer de sentir-se fazendo). Para mim, e para qualquer um que enxergue tudo isso, a forma mais bruta e real de ser algo além de matéria, vento e vazio de átomos é através do sofrimento. E não só o mental, o filosófico e amante dos românticos desenvolvedores de ideais, mas o físico, a própria dor aguda (como a de uma moral bofetada rodriguiana).
Eu a vi como algo não bruto, como disse, mas extremamente real. E, agora, ao escrever sobre ela, a visão de uma profunda sobriedade me vem. É incompatível, eu posso imaginar, mas ela também me pareceu, como brisa leve, tão transparente até o máximo que lhe permitisse ainda ser visível e, portanto, humana. Carregou, consigo, não só os papelões, papeis e sofrimentos, mas a franqueza que herois não têm. Não era ela uma lição de vida, um exemplo, uma batalha ou um trabalho. Era, acima disso, ela mesma uma linha sutil entre existir e não existir, figurado em mulher. Mulher negra, indigente, covarde e única. Lâmina de navalha que se deixa cortar: corta os outros ou corta si mesma?
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Escrito sob serragens que cegam.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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