segunda-feira, 15 de junho de 2009

#suicídio-crônico 1

Às vezes você pode pensar: me ferrei.
Às vezes você pode lamentar: me ferrei.
Às vezes você pode gritar: me ferrei.
E, na verdade, você se ferrou mesmo.
Na verdade, o amanhã, o esquecimento, a cura e o ócio não existem. Você cria para você mesmo. É como um mecanismo, meio absurdo, de compensação pela dor. Quando te dizem: tudo passa, na verdade mentem. Você faz passar. Você cria as situações, os momentos, as pessoas e as ações que farão você esquecer.
Talvez, se não fosse por isso, você se matasse, ao primeiro dia de seu primeiro fracasso. Na verdade, o primeiro fracasso é o primeiro fracasso. Você pode sentir raiva, tristeza, pode sentir que aqueles remédios pra dormir da sua mãe estão muito tentadores hoje. Mas aí, numa espécie de alarme fisiológico de sobrevivência, a droga do teu corpo faz você se mexer.
De repente, aquele programa de TV idiota é engraçado. E você se lembra que quer ler aquele livro de 29 reais. Você se lembra, e isso é o pior de tudo, que você tem medo de morrer. Você não sabe o que tem do lado de lá. E seu maior medo - maior que tudo - é imaginar que não há nada do lado de lá. E você não sabe, eu não sei, o pastor não sabe, o místico e o budista não sabem, o que há, de verdade, do lado de lá.
E só os corajosos morrem.
E então, tudo se desanuvia e o apático dia se resolve. E o que parecia indelével e terrível, se abre num tentador leque de opções.
E tudo passa.
Há aqueles, entretanto, que têm esse mecanismo de criação de situações um pouco falhado.
Ele falha, e você toma os remédios na mão. Ele falha, e você começa, sutilmente, a abrir as veias do braço. Ele falha, e a gravidade do décimo terceiro andar parece deliciosamente tentadora. Mas ele volta, pelo menos em você.
Infeliz daquele que não volta. Porque então, e só então, os remédios, o sangue (quase prateado), a gravidade, são mais que tentadores. São a única solução.
E o medo da morte se dissipa, e os amores se dissipam, e você se fecha num casulo pequeno e quente, num mundo só seu.
O mecanismo se esvai para sempre.
E você também.
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Escrito para qualquer um que tenha um pouco de água no cérebro.
Até a próxima, a tudo.
 
 
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