Eu sempre imaginei o sono como uma espécie de morte temporária. Mesmo nos sonhos, isso não importa. De fato, morrer por alguns momentos é quase que inevitável. Você vira os olhos e fica quieto. Você segura uma revista e finge que lê. Você para de se coçar, você não tem mais braços, você não tem pés nem dedos, você não tem nada. Você é só um monte de olhos revirados. Você está prestes a ficar louco. Prestes a permitir escorrer aquela baba branca e pegajosa pelo canto da boca. Prestes a permitir que os olhos fiquem azuis, como os loucos de Nelson Rodrigues. Obcecado. Obstinado. Louco antes da morte. Louco e louco, dançando como louco, agindo como louco, matando e comendo a carne do homem que vende alho, da moça que distruibui os papeis da cartomante, comendo as cartas, comendo o chão, comendo tudo. Você come tudo. Você se torna louco. Você morre temporariamente. Você devora tudo. E então Chronos não devora você (triunfo doa insanos?).
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Escrito para as horas.
Até a próxima, e tudo.
