Detesto quando as pessoas não sabem das coisas que realmente as mantêm vivas. Já escutei milhares de baboseiras. Ideias, o amor, o tédio, o orgasmo e etecéteras. Idiotas. Será que é difícil de perceber que o que mantém todos nós vivos é só a droga do oxigênio?
Sinto quando penso que as pessoas jamais perceberão isso. Por vezes, entretanto, eu tento mostrar a elas. Eu abro a droga da janela da droga do ônibus naquele dia extremamente frio, em que a ponta dos dedos parece tão frágil que a qualquer segundo podem quebrar, como estalactites patéticas de gelo. E o rosto, cortado por navalhas de vento, não suportariam nem sequer um grau a menos.
Eu olho dentro do olhar de todo mundo. Claustrofóbico fisicamente, num medo absurdo de que todos nós morramos ali dentro. Ninguém parece se importar muito.
Talvez eles estejam todos mortos.
Eu posso pular sobre o pescoço de alguém. Eu posso gritar. Eu posso fingir que nada está acontecendo. Eu posso cair no chão, duro e desmaiado. Eu posso abrir a droga da janela que me faz falta e respirar a droga do oxigênio que me mantém vivo. Ou eu posso ficar quieto.
E então eu inspiro. E todas as bactérias, os vírus, os bichinhos e as lembranças, os recortes de memórias e os feromônios, tudo vem a mim. Eu sinto, como se tivesse sido invadido por um vento radiotivo barato, que todos os milímetros do meu corpo, vivos a todo custo, se enchem deles. Sinto-me um verme mariliano, no globo ocular de cada um deles. Sugando-os, e sendo sugado.
Na verdade, não foi nada bom.
Quem quer migalhas, quem quer restinhos de sentimentos espalhados no ar e misturados a micro-organismos? Quem quer só o restinho, rançoso e quase se dissipando na atmosfera de um ônibus ponta-grossense?
Na verdade, eu não queria.
Mas foi a única coisa real que tive hoje.
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Escrito num bloco de notas, pelo menos o fim de tudo.
Até a próxima, e tudo.
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Escrito num bloco de notas, pelo menos o fim de tudo.
Até a próxima, e tudo.
