segunda-feira, 22 de junho de 2009

#suicídio-crônico 7

Existem milhares de proibições pelo mundo. Nós não podemos simplesmente enfiar a esferográfica no olho naquele idiota. Nós não podemos abrir a lata de batatas e devorá-las. Nós não podemos roubar os pensamentos das pessoas, dilacerar o sentimentos delas, quebrar seus dois braços e suas duas pernas. Na verdade, nós não podemos quase nada. Tudo o que é bacana é proibido. Eu achei, de verdade, que um dia eu desenvolveria as incríveis habilidade de um mutante dos quadrinhos, e que poderia me vingar de todo mundo. No fim das contas, nosso desejo é poder nos vingar. Daqueles babacas que odiamos, ou até que amamos. Mas somos proibidos. E não pelos outros. Aliás, as proibições são uma forma de nosso corpo nos defender, como quando tentamos nos matar. Se simplesmente cortássemos a jugular (e o sangue quase prateado, a obsessão dos loucos) escorresse pelas nossas roupas, nossa existência acabaria. A cada dia mais chego a conclusão de que é a droga do nosso corpo que impede que nós nos divertamos todos os dias. É mais fácil pensar que é a outra droga da ordem social vigente, que é outra droga das drogas, que é a porcaria dos vermes rastejantes, dos pretinhos absurdos e dos branquelos esquizofrênicos. Na verdade, as proibições são só mais uma forma de impedir que os seres humanos escancarem os rostos apáticos, semblantes de terra fria, e mandem tudo à merda.
E existem milhares de proibições pelo mundo. A gente não pode, infelizmente, limpar a sujeira que está grudada em nossas mãos. Quando a gente acha que se limpou, quando a gente acha que o Dove e seu um quarto de creme hidratante hidratou até os ossos, vem alguém. Nós olhamos para os olhos dela, nós sentimos uma gota de suor começar a se formar no canto do olhos. E, num acesso de sanidade senil, elas jogam ovos quase-fritos e água fervente em tudo. A gordura volta a se impregnar nas nossas unhas, a água derrete o pouco de alegria que tínhamos juntado, e a gente precisa voltar a se ajoelhar. Antes a gente mata essas pessoas, mata até os nós dos dedos doerem. Mas então a gente olha para o chão e vê que nada mudou. E pensa, mais e mais, que a única proibição deveria ser uma grande placa, escrita ao lado do Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força. Em letras amarelas e berrantes, haveria de ser escrito: Proibe-se, para todo o sempre, derramar ovos e águas nos sonhos dos outros.
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Escrito numa segunda, teorizado num domingo ensolarado.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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