quarta-feira, 24 de junho de 2009

#suicídio-crônico 9

Por dezenas de vezes a gente acha que pode experimentar várias vezes, e que as órbitas das coisas não influenciarão, e que nada não pode ser refeito, porque a gente tem sempre uma segunda chance, não é mesmo? Mas as coisas sacanas não têm segunda chance porcaria nenhuma. Quando você queimar quatro dos seus dedos, e tiver de amputá-los, eles não vão crescer. Meu pai contava, em canto, a história de um homem que quebrou o braço do filho quando ele riscou seu carro. A criança teve que cortar os restos de ossos, tendões e pele roxa (quase preta) e não ficou nem um pouco magoada. Não sei você, mas acho que seria capaz de reduzir um carro a pó se uma coisa dessas acontecesse comigo. Entretanto, acho que a maioria das pessoas poderia reduzir qualquer coisa a pó se alguém cortasse seu braço preferido. Mas o garoto acreditava fielmente que o braço cresceria de novo. E talvez seja mais ou menos isso: a gente sempre acha que nosso braço vai crescer de novo, e de novo e de novo. Reluzir como outro, ser bonito como se nunca tivéssemos usado. Só que, de uma maneira quase absurda, nada cresce de novo.
A massa encefálica vai ficar lá, como estava antes de tudo. O intestino delgado, esse ainda pulsa um pouco. Os olhos sempre procuram algum desconhecido de branco, para que se possa afirmar, só para seu corpo estático, que havia um anjo lá, mesmo que isso não mude nada. O coração, como uma ratazana que ainda respira mesmo depois de comer alguns gramas de tálio, bate arritmicamente e aguenta mais um pouco, umas trinta e sete, trinta e oito, trinta e... parou.
Nós, e não o cachorro, corremos de um monstro medieval e moderno, inexorável e incansável, veloz e amargamente inteligente. E ele sabe sobre alguns pequenos fatos da nossa vida. Ele sabe sobre a massa encefálica etc. Ele domina os pequenos fatos sobre os pensamentos que voam com os restos de glândula pineal, cerebelo, córtex e etc. Sobre o jantar exposto, a órbita das coisas que influenciam, os sentimentos obscuros que advêm com a eminente morte.
Nós, e não o cachorro, corremos o máximo que podemos. Afinal, se não corrermos, o que fazemos aqui? Nós, e não o cachorro fugindo do ônibus ponta-grossense, às vezes encontramos uma ruela, um refugiozinho, um pedacinho de espaço pra fugir e se esconder, pelo menos até a próxima manhã. Ou não.
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Escrito para um cara obstinado e para um cara bacana.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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