domingo, 7 de junho de 2009

Uma cadeira de dragão

[...] Roza sussurrou no ouvido de Teo:
- Você me ama?
Ele vacila, mas não mente. Odiava aquela prostituta vil e jovem, tão jovem e doce!, mais do que ao passado do pai, o misterioso e tortuoso passado que ele perseguia cegamente há tanto tempo. Naquele instante, voltou a pensar na cicatriz do seio de Roza e sentiu nojo. Não, sentiu tentação.- Eu não te amo.- Então você faria uma nojeira comigo, sem dó nem piedade? - e repetiu, asmática e hirta de tensão - Faria uma nojeira comigo, só porque peço, e não porque me ama?
Eram loucos e jovens, loucos e jovens. Não houve, há ou haverá, jovem são. Os que assim o parecem são tão pervertidos que as mãos doem, meninos e meninas, estas loucas por não se controlarem, e eles loucos por não ter nada a controlar. Começou a chover.
- Não, eu nunca tocaria em você.
- Tem certeza?
Havia um brilho fosco no olhar dela. Ele pensou, instintivamente, na desgraçada da Veronica, e aqueles olhos de maga e aquela voz de maga, e aquilo tudo, e em como ela poderia ser tão perfeita. Por que, em sua tão perfeita consciência, ela não se enamorava dele, e ele dela, e se casavam e iam morar no Uruguai? Infeliz, outro, era o Pablo, e sua beleza exótica, e seu hálito fresco, e seu corpo atlético, e tudo aquilo que fazia-o como era. Contudo, louco de pedra, o Pablo.
Teo então admitiu que o amava, o desgraçado. E não um amor homossexual, de submissão e violentação, mas aquele amor dos fracos, aquela excitação enebriada e doente, de querer só ficar perto e bater um papo. De até pescar, às vezes, e rir e falar de histórias antigas, e se beijar no rosto ou se abraçar.
A chuva era tão quente lá fora que sufocava as ideias, era pesada e carregada de ácido. Ele desviou o olhar da prostituta (já percebera o quanto parecia doce?) e fitou aqueles pés de donzela e as letras escritas com esferográfica: PERSONA, uma em cada dedo.
- Não.
Ela o esbofeteou.
- Eu nunca vou contar nada pra você. Quero que vá para o inferno e que o capeta coma você todos os dias.
- Me bate de novo.
Ela riu e o amou. Adorava-o tanto... Tanto! Nunca o esqueceria porque o filho da mãe a fazia lembrar que havia um lugar melhor que aquele cabaré do século vinte e um, que havia sempre uma Paraty ou uma Missiones a esperando. Ah, e também o amava
- Por que gosta de tapas?
- Me arde o rosto e esfria a alma.
Não o bateu de novo.
- Anda - indagou, olhando-o nos olhos - se não me ama faz uma coisa asquerosa comigo.
Ele sorriu, sem abrir a boca.
- Coprófila!
- Amoreco.
- Vinte dois beijos?
Ela veio, ele a segurou pelos ombros.
- No rosto - e completou, satisfeito consigo mesmo - está bem, diz o que é; eu nunca vou machucar você, não é?
Um carro bateu em outro lá em baixo.
- Nunca.
Eram jovens e loucos; nunca revolucionários. [...]
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Escrito? Acho que não.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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