quinta-feira, 23 de julho de 2009

#suicídio-crônico 11

Hoje eu vi alguns meninos a brincar dentro do ônibus. Vi, além de tudo o que era visível, que eu um dia já fui menino, como eles. E lembrei de como, na verdade, a gente não cresce como pensa que cresce. Você assume sua postura, você muda sua personalidade, você se molda e se encaixa, desesperadamente. Torna-se mais flexível, mais perceptivo, mais azul. Mas, no íntimo, você não muda muito. Ou outra: você nunca vai mudar.
Eu costumava cavar a areia dos parquinhos dos prédios onde morei até encontrar a argila. Naquela época, eu acreditava que, se cavássemos bastante, encontraríamos alguma coisa que prestasse. Vê? Mas, nas idas dos anos 90, quando o supernintendo era meu sonho de consumo, o sonho de consumo de um envergonhado menino de classe média curitibana, eu cavava sozinho até os dedos doerem. Arrumava o montinho de areia molhada do clima de inverno, e fazia-o crescer até despencar ao canto. Cavava, tranquila e sutilmente, ávido em busca da terra vermelha. E a via, tal qual me lembrava, e era minha alegria infantil. Então corria até dentro de casa, roubava uma colher e ia cavar mais fundo. Juntava o máximo que podia e fazia bonecos horríveis de argila. Minha esperança era que ficassem belos como os que via por aí. Deixava-os ao sol, mas depois esquecia deles.
Costumava cuspir nos meus amigos, chutá-los e lhes dar murros. Não sei bem o porquê, mas o fazia. Plantava feijões, mas também me esquecia deles. Fazia cartas em uma linguagem desconhecida, floreada de rabiscos de um analfabeto, e guardava dentro de um saco plástico. Depois, olhando para os lados como quem comete um crime, escondia nos buracos do jardim, determinado que um viajante do futuro a encontrasse. Escrevia coisas bobas, que já esquecia antes de terminar a carta. Coisas como quando o mundo iria acabar, o quanto eu dizia estar apaixonado por uma bruna, ou sei lá mais o quê.
Eu me perdi enquanto isso. Aliás, eu me perdia desde criança. Ou, mais aliás ainda, me perco a todo o tempo. Você faz promessas a si mesmo, você escreve cartas a si mesmo, você diz que gosta de alguém mesmo não gostando, você desaprende a viver sozinho, você se torna um porco sem sentimentos. Você traça metas para sua vida, mesmo sabendo que não cumprirá metade delas. Você torna-se nostálgico, se lembrando de quando era criança, contava histórias extraordinárias e por isso sentia-se feliz, sem pensar nessa droga de futuro. Você se perdia desde criança, mas isso não era (necessariamente) muito ruim. Mas hoje, quando você é um adulto, quando você já não tem mais coragem de cavar na areia até achar argila, quando não existe mais ninguém para você achar que está apaixonado, quando você pensa e revê seus conceitos de gostar e odiar (e nunca amar de verdade), aí você se perde para sempre. Você perde seus valores, a duras penas conquistados, e percebe que está na casa dos trinta, dos cinquenta, dos noventa.
Um dia você acorda e se vê absorto em seus pensamentos. Um dia você, e não eu, percebe que o tempo está passando, lhe devorando, lhe devorando cada centímetro. Um dia você, e não eu, percebe que tem rugas, que tem linhas de expressão, que suas células já não se multiplicam como antes. E então você, e não eu, tem de fazer algumas escolhas. E não (necessariamente) se muito bem nelas. Mas, afinal, não há muito o que fazer.
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Escrito por alguém que achou, de verdade, que um dia seria por algo.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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