quinta-feira, 6 de agosto de 2009

#suicídio-crônico 13

Existem certas coisas que vivem bastante unidas.
Não se pode fazer ovos mexidos (sem bacon) sem quebrar os ovos.
Não se pode fumar se não quer fumaça.
Não se pode beber se não quer a cabeça girando.
Não se pode viver (contagiosamente) se não se humilhar.
Eu digo humilhação, porque sou meio retardado. Mas as pessoas geralmente não concebem assim. Eu sofro por isso, porque, feliz ou infelizmente, eu não consigo fazer tudo sozinho.
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Ele diria a ela, com um sozinho nos olhos e não na boca:
- Você vai fazer tudo o que eu quero hoje?
Ela não respondeu. Limitou-se a retribuir o sozinho, mas com os lábios. Ela ainda não aprendera a sorrir com os olhos.
- Está vendo aquele cara, sentado no banco à direita?
Ela assentiu, quase que sem mover a cabeça.
- Ele está todos os dias aí. Ele lê, fuma, sorri para si mesmo e vai embora. Pega sempre o ônibus das cinco e meia. Não olha para trás, não percebe que o vejo.
Ele estava lá. Não se movia, nenhum centímetro do corpo magro e branco, nojentamente branco. A cada três minutos e trinta e seis segundos, que ele e ele contavam, a página do livro de bolso de letra miúda era virada. Não sabia que livro era, mas não queria saber.
- Vá até ele, sente-se e pergunte por um cigarro. Ele vai te oferecer um Mil, porque é um puto. Você, diga que quer o Marlboro. Peça pelo isqueiro. Ele vai ter oferecer um azul, porque é um puto. Você diga que quer o vermelho que ele tem no bolso direito.
Ela não se atreveu a olhar.
- Quando acender o cigarro, puxe a fumaça e não se atreva a tragá-la. Se você tragar, eu vou lhe dar um tapa no rosto, e você poderá retribuí-lo se eu não conseguir conter, com afeto, sua mão. Jogue a fumaça fora e olhe nos olhos dele.
Ela não se mexeu.
- Peça por um beijo. Se ele hesitar, diga que só quer um beijo. Quando suas bocas se juntarem, não se atreva a tirar sua língua da sua. Não quero mais que o mínimo de saliva dele em seus lábios, ou não a beijarei novamente. Se o fizer, levará um tapa, sob as mesmas condições anteriores. Quando ele, porque ele vai fazê-lo, porque ele é um branco magro e puto, colocar a língua em seus lábios, desencoste dele e cuspa-lhe a cara. Mire a boca, o antro, o buraco. E diga, aos berros: "eu só pedi um beijo".
- E se ele me agarrar, me violentar, me sugar?
- Eu o mato, e mato a você, sem deixar vestígios.
Silêncio.
- Você correrá até mim, e eu até você. Não me beijará, não quero sentir a saliva dele. E irei até lá e lhe falarei, e brigarei com ele. Ele me espancará, porque eu sou fraco. Tenho certeza que é do tipo que mira nos dois olhos, para me deixar cego. Só permitirei que me cegue um olho, porque não suportaria não te ver mais. E então você chorará, e me abraçará, e só então me beijará. Ele vai perguntar: mais eu ganhei? E você saberá o que dizer.
Ela foi, andando simplesmente. Sentou-se, ele não se mexeu, mas seu baixo ventre deu sinais de vida amadora.
- Me dá um cigarro?
Tudo como ele dissera. Quando seus lábios se tocaram, ele largou o livro e tocou a outra face dela. Ela se afastou, gritou, lhe cuspiu a cara. Ele, rápido, desferiu-lhe um tapa, mas ela aplacou sua mão. Levantou, limpou o rosto, saiu. Encontrou-o no telefone público, sorrindo para si mesmo.
- Por que raios você quis enfiar a língua na boca da minha pessoa?
- Ela é uma vadia, e você é um corno ridículo e veado.
Foi para cima dele, apanhou até as costelas rangerem. Mas, como o pai que tivera lhe ensinara, meteu-lhe os dois dedos da mão direita nos rins. Ele caiu. Levantou-se, e esmurrou o seu olho esquerdo, o que mais apreciava. Tudo como ele dissera.
A garota, lívida, abraçou-o e beijou-o.
- Mas eu ganhei!
Errara. Ele não perguntara. Mas, felizmente, ela esquecera e ninguém no mundo poderia saber que errara mais uma vez.
- Nem sempre quem apanha menos é quem ganha. Ganha quem apanha melhor.
E saíram, deixando o magro nojento para trás, o rosto sujo de terra e a boca palpitante de saliva gosmenta. Ele, ao lado dela, tinha o olho inchado, um dente quebrado, as costelas ainda rangiam. Mas se amavam, até doer. Se é que poderia doer mais.
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Escrito porque assim imaginei, assim foi, me catalisei na madrugada.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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