sexta-feira, 28 de agosto de 2009

#suicídio-crônico 14

Eu devia temer, pelo menos depois de tudo. Temer a ela e temer a mim. A ela, pelas considerações pouco ortodoxas que teve comigo depois de um tempo. A violência velada, o silêncio que me fura os tímpanos, a indiferença mesmo quando me beija, se entrega e diz que me ama. Todas as coisinhas pequenas que não temos mais. Todos os lugares-comuns que devíamos fingir gostar. Todos os toques (a pele lasciva quase levantando fumaça) que eu fingia gostar. A ela, desejo a morte mais densa e profunda, mas dolorosa e absurda possível. Tijolos na cabeça, gangrena na verruga do pé direito, um tiro no meio dos seios (e que não afetassem a cicatriz, que amarei até o meu último suspiro).
Eu devia temer muito mais a mim, porque eu sei o que se passa dentro da minha cabeça e sei tudo o que penso e tudo o que faria se pensasse só um pouquinho (só um pourquinho) a mais. Dizem que pensar faz bem. Pensar me deixa doente. Toda essa merda de amor heterossexual não é comigo. E nem sentiria nada se beijasse um homem. Talvez até mesmo porque não sinto nada ao beijar ninguém. Permitia-me sentir uma mulher porque detesto pelos.
Eu tenho medo de que um dia possa matá-la de novo. Com um pouco mais de sangue e um pouco menos de dor. Pelo menos a dor do corpo, visto que o sofrimento da mente ao vê-lo, o sangue prateado, é inevitável.
Queria poder fingir que os cem anos de solidão sequer foram reais. Sequer são coisas tangíveis a ponto de quase tocá-los quando cerro os olhos e minhas pálpebras me vencem. Se eu pudesse, não permitiria que Otávio vivesse em mim. E muito menos Pierre, porque sou higiênico. Aos outros, não me importo. Até porque, mesmo a mim, fingir que não existo por alguns segundos é tão prazeroso quanto uma pequena morte que dura trinta e quatro segundos, um suíno suado e de pés tortos, os bíceps doloridos e os nós dos dedos quase roxos de tanto me apoiar neles para comê-la.
Tudo é uma merda. Eu não sou cem por cento. Eu gostava de usar um binóculo militar do meu padrasto para ver as pernas de uma vizinha. Eu não me excitava, mas poderia morrer ali. Só ela existia. Só suas pernas brancas existiam. Eu não devia ter matado o marido dela. Nenhuma mulher de trinta e um anos dormiria com um garoto de nove.
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Escrito hoje com alguns minutos de ócio.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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