domingo, 30 de maio de 2010

Uma vez li uma reportagem sobre a Clarice Lispector. Nunca a li, nunca a apreciei, mas é mais uma na lista das coisas que amo sem motivo. E ela fazia ponderações enormes sobre o que escrever, como se policiar, o que evitar. Me encheram os olhos seus erros. E pensei um pouco.

Queria eu ser o mestre da mesóclise. Queria escrever cartas mil com os rigores ortográficos, sintáticos e semânticos os quais nunca tive. Tenho medo do erro. Porque esse, o erro visual, é meu único erro público. Posso ser um sem caráter, dos tipos assassinos, dos tipos que pensam em negar cigarros a desconhecidos, dos tipos bukowskianos cheios de metralhadoras, ou dos tipos rodriguianos, com suas máscaras que caem e mostram a "nudez psíquica". A minha nudez psíquica está no erro invisível. Mas audível, mas tocável, mas cheiroso. Talvez por isso me inquieto ao ler coisas passadas.
Me encontro nos erros e não me perdoo.
Não assumo minha humanidade. Nunca o fiz assim, na lata.
Só assumo aos pouquinhos.
Queria eu poder me arrumar a todo passo. Poder me equilibrar a cada cena. Queria eu poder despedir o diretor de fotografia do meu filme. Que é um filme dos tipos sganzerlianos, porque é caído até as últimas e, mais do que tudo, é ambíguo até o talo.
Eu amo a ambiguidade.
Não o sou, mas o amo.

Se eu pudesse não erraria. Mas consigo imaginar o Carlos Drummond de Andrade atado a uma borracha, dos tipos desgastadas.
Eu espero nunca encontrar um erro sequer em Drummond. Não me mataria se o fizesse em Nelson Rodrigues ou Anaïs Nin.
Mas num Drummond não!

Escrito como pessoa, eu Guilherme, que sou humano como qualquer um, que tenho desejos e medos, que vou ao banheiro e coloco a culpa nos outros.
Até a próxima, e tudo.
 
 
Creative Commons - organismo