Às vezes eu me canso de pensar na vida como uma roda de fogo, que nem por ser fogo consegue queimar, não no sentido literal, mas como uma roda de fogo gelado, que envolve e lambe, amacia a carne a frio.
Às vezes eu me canso de pensar na vida assim.
Deve ser porque eu acabo, às vezes, percebendo que a culpa não é da vida, nem do mundo, muito menos minha. Eu não tenho culpa de ter dezoito anos, de ver os problemas numa dimensão exagerada, de achar que tudo é tão difícil quanto não é. Eu não tenho culpa dessas revoluções internas. Eu não tenho.
E eu tento me convencer disso, de que a culpa não é minha, de que sentir as coisas de modo tão permeável faça parte dessa coisa toda.
Eu prometo que eu tenho vergonha de perguntar às pessoas. É claro que não quero dizer que sou especial, que eu sinto de modo especial, que eu enxergo de modo especial, que as revoluções são especiais. Não o quero.
Percebe? Eu mesmo vejo o quanto isso é redundante. O quanto meus anseios são lugares-comuns. Eu mesmo percebo o quanto todos devem sentir, pelo menos em algum momento íntimo, o escândalo que é essa coisa toda.
E, eu penso, deve ser por isso que as pessoas gostam mais ou menos das mesmas coisas.
Todos gostam do afeto.
Todos gostam do amor e do ódio.
Todos gostam de coisas simples quanto o nascer ou o pôr-do- sol, o orvalho sobre a folha verde-bandeira, o correr das crianças sob as nuvens espessas, ou de uma comida quente e salgada.
Todos precisam sentir certas coisas.
Mas nem por isso eu me sinto satisfeito.
De algum modo eu não consigo enxergar quanto está na minha frente, quando está a ponto de tocar meus cílios se eu só suspirar um pouco mais fundo.
Eu me sinto cego das coisas importantes.
Eu não as vejo, elas não me veem.
Percebe de novo? O quanto eu me sinto pequeno.
O quanto eu me sinto igual a todos. Eu me sinto feliz com isso. Eu me sinto feliz quando me aproximo das coisas perenes. Eu me sinto feliz quando eu acredito que vejo o que todos já viram e parecem nem mais notar.
E você, se você existe, ainda percebe? Eu me sinto feliz quando me aproximo das pessoas ao sentir o que elas já sentiram e se esqueceram.
Eu me distancio de novo.
Eu sou estrangeiro em meus próprios pensamentos.
Um dia, um jovem pintor de paredes do sul de Aix-en-Provence olhou pela janela do quarto e viu uma criança brincando com um gato malhado. Sua mãe a chamava mais na frente, segurando uma grande bolsa cheia de cenouras. Ela gritava pela criança, irritada com sua demora e pensando na grande panela de água que fervia no fogão a lenha. A menina, que tinha os cabelos cor-de-trigo cortados à la Channel como a mãe, coçava a barriga grande e gorda do gato, esquecendo-se do mundo, enquanto o animal guinchava como um porquinho satisfeito após o almoço. O jovem viu na simplicidade do carinho a oportunidade de um sorriso. Ele se sentiu sozinho no mundo por ser o único a admirar a criança, o gato e a mulher. Ele sentou-se no chão do quarto e chorou amargamente.
Escrito como sempre, sem pretensões e, excepcionalmente, sem inspiração lembrada.
Até a próxima, e tudo.
