sábado, 5 de junho de 2010

#suicídio-crônico 16

Hoje eu vi a sombra que só se move quando eu não respiro. Eu inspirava, ela tremulava. Eu expirava, ela tremulava. Mas ela não se mexia. Quando eu segurava o fôlego, ela crescia sobre o prédio. Ela mostrava a imensidão. Eu agia como embriagado pelo poder que eu tinha sobre o sol. Ele era meu vassalo.

Hoje eu mandei no sol.

Mandava que se mexesse. Mandava que parasse.
Ele obedecia.
Vê? Mesmo a cerca de cento e cinquenta milhões de quilômetros de mim, eu movi o sol ao meu bel-prazer. Ali, sentado sozinho no banco da calçada, suspirando por uma brasa, eu me senti poderoso.
Na verdade, naquele momento, eu me senti sozinho e louco. Mas agora, no calor do meu lar, na frieza da tela de ele-cê-dê, da música involuntariamente gratuita, da sobriedade e do desespero pela falta de um cigarro qualquer para me fazer compainha, vejo a situação de modo diferente.
Na verdade, talvez uma das melhores coisas em ser humano é poder ver tudo do modo como quiser. Não há pelo menos dois modos de ver uma situação. Isso é uma mentira. Sempre houve, há, sempre haverá, todos os modos. Há o cálculo silencioso e automático dentro de sua cabeça. Há o sem fim de possibilidades.
Agora me vejo como o dono do sol.
Naquele instante, me vi como o pardo solitário à espera do filme que nunca começará.
À espera do lirismo em forma de homem de meia-idade, de isqueiro, chave de carro, e Dunhill.
À espera da sabotagem.
À espera do encontro íntimo, do inesperado.
À espera da troca de olhar.
À espera da humanidade, que viria me resgatar e me lembrar que eu faço parte do time, que tanta bobagem faz mal para o corpo e a mente, que há alguém esperando na esquina, que isso e aquilo são parte do pacote e que, se todo o mundo aceita, por que eu não poderia?
À espera do fim de certas coisas vergonhosas de serem ditas.
À espera dessas coisas vergonhosas e humilhantes que nunca deveriam ser ditas.
Porque no fundo... não, bem na superfície, gritando para sair de todos os meus poros, estou implorando.

Mas isso não me impediu de quase rebentar de felicidade diante do crepúsculo.


Escrito para que eu nunca me esqueça que tudo isso é culpa da falta de alguém para dividir o apartamento.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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