sábado, 5 de março de 2011

Caso fôssemos

Poderíamos ser mil. Seríamos como a inquietação diante da morte, o último adeus florentino, o olhar de súplica de um navegante rio-grandense. Percebes? Poderíamos amanhecer para sempre, poderíamos entender tudo. Seríamos ilusão meio encantadora, ou verdade absoluta gelada e indiscreta. Escreveríamos cartas de saudades sob os mais maduros pôr-de-sois. Solitários, seríamos o espírito da solidão, amada e desejada, disfarçada em pequenas coisas, velhas, quebradas e imensuravelmente caras. A vida nos seria imposição, ainda. O medo de ter medo seria nossa inquietação. Andaríamos a pé, com a certeza única de que sugamos a última gota de um destino volátil, mas intenso. Não conheceríamos a noite temerosa, ou o dia escaldante. Sorriríamos, porque seríamos felizes. E nada seria tão belo quanto sentir-se humano. Machucar-se e sangrar. Vês? Contentamo-nos com pouco, com o conhecido e já provado. Tu te importas? Eu também não. Faríamos parte dos viciados em uma mesma sensação, já gasta e desvendada, mas tão bonita! E correríamos pelas terras, os pés no chão, e nos importaríamos como muito pouco, talvez quase nada. Seríamos livres.
 
 
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