quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sobre a essência

Acho que sou essencialmente pessimista.

Tudo o que gostaria de ter era ter o que renunciar. Se tivesse as coisas que gostaria de ter, renunciaria a todas apenas para ser como sou. Seria uma escolha, não uma sentença. Acordaria, numa manhã qualquer, ligaria a televisão e sairia pela porta (que deixaria aberta). Os pés descalços, o pijama bordô apertando a cintura, os cabelos rebeldemente ondulados por culpa da noite. Poderia sentir as remelas nos cantos dos olhos. Ainda ouviria uma última notícia. O leite esquentaria no fogão até ferver e, após fervido e derramado, apagaria a chama. Longe, andando inexorável, ainda conseguiria sentir o cheiro do gás que, assim como eu, continuaria, lento e inexorável, até o fim. Em minha cabeça, pensaria em tudo o que eu estava deixando, para sempre. Sempre imaginei que, depois da morte, o mais corajoso dos homens é aquele que renuncia a tudo o que ama, apenas pela prova da coragem. A maior coragem é a coragem por si, apenas. A muitas distâncias do passado, já o leite teria outro gosto, o vermelho seria mais verde, eu não lembraria onde comprara o pijama bordô. Ao chegar em lugar qualquer, os olhos azuis de insanidade, diria ao primeiro que encontrasse:

- Estou louco.


Escrito como se minha vida dependesse de mim mesmo.
Até a próxima, e tudo.
 
 
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