Em 14 de abril, alguns dias após Jango ter caído, Jorge abriu um baú que seus pais guardavam debaixo da cama. Havia algumas fotos, uma fantasia do carnaval de 56 e um bolo de cartas, datilografadas na Lettera 22 que tinham e um sem número de pontas de cigarro. Eram de várias marcas, as bitucas. Jorge leu todas as cartas, e vestiu a fantasia de Peter Pan. Nas bitucas, tentou acender todas, sem sucesso. Então tomou as caixas de fósforos e quebrou uma a uma. Doeu, porque lembrou de Ana. E terminou de quebrá-las, uma após a outra, com uma raiva de si que só encontraria par numa crônica que escreveria, no dia seguinte, para o JB. Falaria de um tal Pedro, contaria uma história triste, mas todos saberiam que era sua própria história, tamanha a precisão de detalhes. Mas, naquela manhã, ele ainda tentaria se lembrar dos pais. Sua mãe, também Ana, morrera há alguns anos; o pai não tivera destino menos nobre. Pensando em Ana, a sua Ana, pensou em si mesmo. Queria manter o foco nos pais, mas mal podia deixar de pensar em Ana. Àquela época, tinha quase trinta anos, mas sentia como se tivesse ainda doze, tamanha a vontade de fazer tudo diferente. Em um fim de tarde, brincando com Ana no quintal da casa dos avós, ela disse que o amava. Ele parou um segundo, as amoras entre os dentes, e pensou em dizer que também a amava, tão ardentemente quanto seus doze anos permitiam. Olhou a garota, seus olhos (os dela) quase marejados de expectativa, e sorriu. Desceu da árvore e nunca mais voltou a ir à casa dos avós. Nunca soube muito bem porque não se confessara, mas guardava a culpa do primeiro amor e se lembrava dele assim, de tempos em tempos. Arrependeu-se, de novo. Mas aprendeu com o medo e amou a todos os outros que quis e que não quis. Deitado sobre as cartas, os fósforos partidos e as bitucas dos pais, sorriu novamente, como naquela tarde, um sorriso bobo sem um porquê. E entendeu um pouco mais sobre si mesmo. E voltou a esquecer os pais, como fizera até então.
