sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Jorge

Em 14 de abril, alguns dias após Jango ter caído, Jorge abriu um baú que seus pais guardavam debaixo da cama. Havia algumas fotos, uma fantasia do carnaval de 56 e um bolo de cartas, datilografadas na Lettera 22 que tinham e um sem número de pontas de cigarro. Eram de várias marcas, as bitucas. Jorge leu todas as cartas, e vestiu a fantasia de Peter Pan. Nas bitucas, tentou acender todas, sem sucesso. Então tomou as caixas de fósforos e quebrou uma a uma. Doeu, porque lembrou de Ana. E terminou de quebrá-las, uma após a outra, com uma raiva de si que só encontraria par numa crônica que escreveria, no dia seguinte, para o JB. Falaria de um tal Pedro, contaria uma história triste, mas todos saberiam que era sua própria história, tamanha a precisão de detalhes. Mas, naquela manhã, ele ainda tentaria se lembrar dos pais. Sua mãe, também Ana, morrera há alguns anos; o pai não tivera destino menos nobre. Pensando em Ana, a sua Ana, pensou em si mesmo. Queria manter o foco nos pais, mas mal podia deixar de pensar em Ana. Àquela época, tinha quase trinta anos, mas sentia como se tivesse ainda doze, tamanha a vontade de fazer tudo diferente. Em um fim de tarde, brincando com Ana no quintal da casa dos avós, ela disse que o amava. Ele parou um segundo, as amoras entre os dentes, e pensou em dizer que também a amava, tão ardentemente quanto seus doze anos permitiam. Olhou a garota, seus olhos (os dela) quase marejados de expectativa, e sorriu. Desceu da árvore e nunca mais voltou a ir à casa dos avós. Nunca soube muito bem porque não se confessara, mas guardava a culpa do primeiro amor e se lembrava dele assim, de tempos em tempos. Arrependeu-se, de novo. Mas aprendeu com o medo e amou a todos os outros que quis e que não quis. Deitado sobre as cartas, os fósforos partidos e as bitucas dos pais, sorriu novamente, como naquela tarde, um sorriso bobo sem um porquê. E entendeu um pouco mais sobre si mesmo. E voltou a esquecer os pais, como fizera até então.
 
 
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