domingo, 21 de agosto de 2011

No quarto em que te tive, soprei em mim como um flautista romântico que ama e vê, no ar que sopra, sua própria alma virar música

- Como assim?, ele perguntou, franzindo a testa e olhando para os lados, naqueles rodopios retóricos que sempre, subliminarmente, almejam um "Nada, esquece" como resposta.
- Não me faça ter que dizer, Roza respondeu.
Dentro do plano de diálogo na cabeça dela, tudo ficaria bem, porque tudo o que Teo dizia era sempre previsível. Não havia surpresa em nada do que ele dizia ou fazia, tudo parecia tão velho e gasto, que qualquer idiota poderia prever o passo a seguir. Qualquer idiota com algum conhecimento sobre as pessoas. Roza admitia, no íntimo, que obviamente conhecia muito pouco das pessoas. Valia-se da personalidade para mentir deliberadamente sobre muita coisa, inclusive isso. Ser uma puta, jovem e doce como um orvalho que toca a pétala, não faria dela conhecedora de absolutamente nada, a não ser, talvez, de tipos físicos diversos e um pouco de parafilias sexuais. Poucos eram os homens que realmente fodiam e falavam, ou falavam e fodiam, ou só falavam. Em sua grande maioria, apenas as besteiras cotidianas. Besteiras cotidianas as quais todos estamos, no mínimo, com vontade de se distanciar. Mas, e isso ela admitia a si mesma com convicção e certa dose forçada de experiência na mente, era extremamente delicioso, fingir para si mesma tanto que a mentira quase que se fixa à pele, quase que gruda nos ossos e está amarrada a cada palavra, a cada gesto, a cada sentimento. Talvez, para ela, o maior sentimento, o que permeia e comanda todos os outros, era esse que eu, em minha pífia criatividade, não conheço nem procuro nomear.
- Vou ter mesmo que dizer?, ela continuou, depois dos segundos histéricos de silêncio.
Teo, e isso até mesmo o inseto que observava a cena repousando calmamente sobre um dos pés da cama pôde perceber, corou um pouco. Ó corpo, maldito promotor ficcional de nosso eterno julgamento sob acusação de crimes contra o humano, que nos denuncia enviesado nas linhas mais tênues de nossa consciência! Ó rosto, máscara viva que pode ser morta! O garoto encolheu os braços, afastou de Roza e mirou o abajour.
- Eu não sei o que sinto sobre nada.
- Não sabe ou grudou no cérebro a ideia de que não sabe e nunca vai saber.
- Não sei se sei ou se não sei.
- Você não quer pensar sobre.
- Eu não quero pensar sobre.
- E, convenhamos, isso não faz nenhum sentido. Você é a pessoa que mais pensa em todo este quarteirão. Pensa sobre tudo, mas não pensa sobre si mesmo.
- ...
- Você quer que sintamos pena!
- Não!
- Sim, é isso! Quer que sintamos pena para que não o forcemos a responder!
- Não!
- Conheço caras como você, Teo, e conheço aos montes. E quer saber? Vocês sempre vencem.
- Vencemos?
- Agorinha mesmo pensava em te encher de perguntas e exigir as respostas, mas agora sinto pena de você. Seu rubor, sua fuga, sua voz afinalada, seu olhar de súplica. Você suplicou para que eu não perguntasse a verdade sobre o que você é, e, puta que o pariu, você venceu. Sinto tanta pena que poderia arrancar um olho e te presentear com ele caso você me dissesse que precisava.
Ela ainda fungou, feliz de ter, e só ela o sabia, vencido. Foi tomada de assalto como um feitiço da morte.
- Eu preciso de qualquer coisa que não beire a tristeza ou a solidão.
E beijaram um ao outro.
 
 
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