
Eu já disse que meu maior sentimento é a desolação. A desolação transcende a tristeza e a depressão porque, além delas, há qualquer coisa de inócuo, de distante, como se pudéssemos assistir a tudo o que acontece sem se envolver, quase como se não se importasse. Às vezes penso seriamente que não nos importamos com a desolação. Ela nos devora como uma raposa à espera da presa, que guincha entre os dentes mais como um último suspiro do corpo do que como uma tentativa de liberdade da mente. Sempre os animais me intrigaram. Há qualquer coisa de conformação em tudo o que ocorre em suas vidas. Qualquer coisa de saber e entender seu destino. Um sapo na boca da serpente que a princípio tenta se desvencilhar mas, aos pouquinhos, aceita a dor e a morte e compactua com elas. Acho que eles aceitem o aceno da Morte, em seu sorriso simpático, mais do que qualquer humano um dia aceitará. O corpo luta, como sempre lutará, mas a mente a abraça. Como quando as gazelas são pegas: em seu olhar há resignação, há discórdia, há revolta. Mas, enquanto o sangue é drenado aos pouquinhos pelo fio da presa do felino, tudo em sua mente torna-se apático e conformativo. Sempre vejo paz nas cabeças empalhadas. Vejo a transcendência da aceitação do mundo, quase débil, quase acultural, quase sarcástica. Não que eu queira morrer, logicamente.
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Às pressas, e tudo e tudo e tudo.
(imagem: Insomnia.liquidweb.com)
