Em 1971, enquanto tomava um sorvete de framboesa dentro de uma padaria no Rio Comprido, Teresa Amada, então com seus treze anos, viu um homem passando pela rua, uma maleta nas mãos. Ela não o notaria se ele não estivesse de sobretudo, em pleno 22 de fevereiro. Na verdade, ela não o notaria nem se ele estivesse de sobretudo (o que estava), se ele não tivesse lançado um olhar tentador para ela. Olhou e sorriu, os dentes amarelos de fumaça. Teresa Amada, dócil como a grama verde recém-aparada, enfiou todo o sorvete na boca e estremeceu com o gelado ardente. Abriu a porta da padaria, deu um tchauzinho pra Dodora, a caixa, e foi atrás do homem. Em sua cabeça não tinha nenhum motivo para fazer tal coisa, mas apenas o fez. Ele virou a ruela de nome de general, depois parou no sinaleiro da outra esquina, acenou para o motorista do ônibus que o deixou passar antes do sinal abrir, e entrou numa agência da caixa econômica federal. Teresa Amada lembrou que o pai tinha feito uma caderneta de poupança para ela há uns anos, numa agência de Copacabana. Na ocasião, ela nem ligara muito, se fizera de feliz porque sabia que ganharia um pastel de feira de quarta caso se comportasse bem. Lembrou do beijo do pai, em cada uma de suas bochechas, o bigode grosso e penteado incomodando, e depois esqueceu. Chegou bem perto da agência, e viu o homem conversando com um segurança. Pregou os olhos no vidro, tentando enxergar além dos reflexos. O homem e o segurança saíram da agência, olhando para trás. E então, ainda admirando a maleta que ele havia esquecido, Teresa Amada sentiu uma sede indescritível. Foi quando se ouviu um estrondo e Teresa Amada foi engolida pelas chamas, ardentes, furiosas, lambedoras e nunca antes tão quentes.
Escrito para a Teresa Amada que eu senti hoje.
Até a próxima, e tudo.
