Gosto de me pegar me sentindo uma boneca de trapos. Uma marionete. Algo encardido e que é jogado de um lado a outro ao bel prazer de quem quer que seja. Algo sem vontades e irremediavelmente estático, letárgico e inerte. Completamente dominado pelo não-ser, pela não-existência. Você, cheio de olhos vitrealmente vibrantes, consegue imaginar o consolo de uma negação da EXISTÊNCIA? Ninguém pode me convencer que de eu existo se eu não o permitir. Uma meretriz democrática, eu sou. Perdido entre errôneos e inexistentes tempos verbais. Eu sou algo sujo e inútil que vive no canto de um quarto porque, mesmo depois de ignorado e chutado momentaneamente, não posso atravessar paredes. Então eu permaneço e espero pelo próximo. Pacientemente. Eu sou algo que vive grudado nas raízes profundas e aparentes de uma árvore antiga que aparece na parede de um precipício. Ali, por mero acaso. Algo que espera pelo vento, que me leva pelos céus e me faz repousar em campos mais-que-elísios. Eu nunca causei uma guerra. Eu nunca matei ou morri. Eu nunca senti dor. Não tenho olhos nem ouvidos. Sou substancialmente nu, em toda e qualquer análise. Eu não sobrevivo ao mundo, porque não sou vivo. Não sou homem ou mulher. Sou a androginia antropozoomórfica atemporal e amaterial. E fico assim, à deriva, à espera de ser usado novamente, de ser útil por alguns segundos, de ser apreciado em minha insignificância e de arrancar dos outros uns pedacinhos de vida, que devoro em torpor e em estremecimento.
Mas eu amo.
