terça-feira, 22 de novembro de 2011

O dilúvio de Noé

O velho tinha algo entre seus dedos, qualquer coisa que o incomodava quando abriam e fechavam. E que arranhavam. Pensou em tomar dois goles de qualquer coisa e dormir profundamente (eu o vi mexer no bar); fumaria ainda um cigarro, tossindo mais que tragando (eu o vi com um isqueiro na mão). Rastejando pela névoa, entretanto, sussurrando como um amante enebriado e ilógico, ela chegou, e tocou seus lábios. Que importava ser cego e surdo à sua presença, que importava apenas tateá-la? Há muito deliciava-se com as íntimas compensações das ausências. Em seu corpo, o mundo se limitava. Em sua alma, parecia uma criança agora há pouco desperta.

Então correu.

Não metaforicamente, não mesmo!
Cansara-se das metáforas e cansara-se das coisas
b
r
eví
s
s
im
as.
Eu o vi: correu, até que os pés sangraram e livraram-se do asfalto.
Até que as árvores o abraçaram e sorriram,
"Pensamos que nunca se lembraria!" (elas disseram).

Como quem finalmente se olha pela primeira vez, ele tocou cada parte de seu efêmero corpo, e entendeu o enigma
Do si,
Do eu,
Que só entende quem
tudo suporta,
E tudo aceita,
Porque então o mundo lhe acena,
Seus olhos cheios de pequenos olhos,
(Famintos por ver mais vidas, até o fim do fim),
"Vocês humanos me deixam entediada".

Seguido por bons sentimentos
(Eles abraçaram e beijaram sua face),
Assim, aos poucos e musicalmente,
O mundo retomou suas cores,
(Vivas e muitíssimo cintilantes para uma noite sem luar, eu percebi),
E todos pareceram prontos para uma grande cerimônia, que duraria o tempo que o tempo durasse.
E Noé Azevedo de Andrade Ferreira acordou pela primeira vez
(E dessa vez ele sorria, acreditem em mim).

 
 
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