domingo, 1 de janeiro de 2012

O ofuscamento

Talvez seja o melhor momento para admitirmos que, apesar de negarmos, nós nos queremos. Fugiremos, mas voltaremos para espiá-los, escondidos atrás de uma árvore e os olhando felizes no lado de dentro da janela da casa. Estamos cheios de sentimentos e de vontades, impassíveis em nosso egoismo, mas o que somos, o que queremos e o que nunca será nosso é apenas uma mistura de falas de um diálogo montado rapidamente por um demiurgo esquisito e que (pelo menos assim o penso) não querem dizer nada em especial. Nossas transfigurações se exauriram antes mesmo de parecerem reais, sumiram como se fossem imputrescíveis diante do mundo! Qualquer coisa de novo e fresco foi perdido enquanto fingíamos dormir. O tempo se processa, seus dados computadorizados queimando os núcleos das máquinas que fingem nossa existência, e a cada segundo as redenções parecem menos possíveis. Toda cor perde sua plenitude quando observada por muito tempo. Somos atomicamente tristes, construídos com o refugo da matéria, com prótons de terceira e quarta gerações. Brilhamos fracamente, e toda essa luz azulada é fria e amarga.
O maior medo de Louis Apolinaire, cozinheiro em uma estalagem na fronteira imaginária entre a Suécia e o Uruguai, tem qualquer coisa a ver com perder-se superficialemente, a insanidade como saída, a covardia como explicação, o silêncio como messias. Uma viagem de convencimento pelas águas sempre escuras e as marés perigosas das terras sempre secas onde tudo o que não fez e deveria ter feito não se funde e se perde para sempre, mas sim lateja, constantemente, como uma lembrança de seu fingimento.
 
 
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