sexta-feira, 8 de junho de 2012

Nossos corpos que, amaldiçoados por sua existência, passaram a acreditar em seu caráter inventado...

Há algo que repousa sobre os restos, e que os espia (ignorando seus passados), e que olha para cinzas, e ouro, e pó, e tudo o mais, valiosos e desprezíveis, misturando-se num lixo inútil: restos não são pessoas, não são materiais, não são nada; pois restos são coisas, e as coisas são... coisas. Não têm nome, e não porque não querem: porque ninguém as chama. O silêncio e a inércia pairam sobre as coisas, como se nada mais pudesse torná-las vivas e sedentas, e o algo que observa os restos passa a viver sobre os restos, ciente de sua desencarnação e lamentando-se sobre o que nunca mais pode ser salvo; eis que cria um ninho sobre o monte de sujeira, passa a comer ao lado dela e a respirar ao lado dela. "Esqueci que os restos não são algo, são coisas", ele lamenta, enquanto, aos poucos, uma teia invisível e inquebrável os une, o algo e o não-algo. Ele, que limita a cada vez menores distâncias seu contato com o intocável, passa a cheirá-los, a lambê-los, a dormir por cima deles, e admite que cinzas têm gosto de desespero e de angústia mas, quando passamos a devorá-las, não se pode simplesmente parar e fingir que nunca as experimentamos, não é?, porque elas estão aqui, umedecendo-se em nossos fluidos, engrossando nossas carnes, lua a lua, sol a sol, vida a vida, estas carnes que vão apodrecendo e tornando-se melancólicas, e frágeis, e moléculas desintegram-se delas para provar sua materialidade humana. O algo (que se desubstancializa) se desfaz de sua sintaxe, a devora por dentro, e semantiza-se no inclassificável, incompreensível, visibilíssimo. Algo morre dentro desse algo quando ele passa a devorar a si mesmo, em todas as facetas da literalidade, e percebe, com horror em seus olhos, que o reflexo de si já é indivisível do reflexo das coisas.
 
 
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