segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Solar

Voando, cada mais alto, tornando-se inalcançável, Ícaro tocava os céus. Enquanto sentia o Sol a milímetros de seu corpo inglório, pensava nos pobres mortais que deixava para trás, secos e incrédulos, mugindo como ruminantes e rangendo os dentes como que amaldiçoados. A luz, que o cegava, era menos quente do que a que queimava a pele lá embaixo, na terra que ele esquecia. A estrela, como um voluptuoso amante, o enlaçava com seus raios dourados, fazendo-o dele, somente dele. Lutando contra os grandes braços de Éolos com suas frágeis asas de gaivota, o fugitivo de Creta sentia-se menos mortal do que já fora em toda sua existência... Tomado pela luz e pelo esquecimento, um tipo de esquecimento cálido que acompanha aqueles que se tornam tão frios e ocos que apenas Hades os aceita, "Perséfone afagará meus cabelos", ele pensa, num estampido de razão afetuosa que antecede sua queda rumo ao desconhecido.

 
 
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