Foi quando seus olhos viram a imagem fracamente refletida na vidraça escura que ela chegou à conclusão áurea de si mesma, que "Estou morta", e parecia a resposta óbvia que estivera escondida sob os escombros de fantasias e invenções que fizera, culminando em seu rosto, que refletia e era refletido pelo vidro; dois grandes cortes seguiam-se da têmpora ao nariz, um sangue inexplicavelmente gelado ainda não coagulado, e qualquer coisa de pena de si mesma atravessando seus pensamentos, mas não poderia jamais abandonar a janela, não poderia de maneira alguma pretender sublimar a brilhante conclusão a que chegara; pois então permanecia estática, um rio atômico descendo sobre seu rosto, que queria que fosse tão lento quanto possível fosse, porque assim adiaria seus movimentos, uma relação de dependência criada às pressas, a máxima de qualquer coisa: nada poderia acontecer, absolutamente nada, enquanto o sangue não terminasse de brotar e de deslizar sobre o precipício de sua face. Lembrou-se de passagens rápidas e estúpidas de poucos meses até ali, sentindo-se menos humana do que nunca, "Tu és uma peça, sua boba!", ele disse quando ela lhe lambeu o nariz sujo de qualquer coisa doce que comiam em uma tarde de domingo no alto Lapa, ou mesmo "Valha-me, sua cretina, sua cadela", que ele desferira, o olhar surpreendentemente imaculado, quando envolvera-se com Mariano. Arrependia-se desse romance dentro de um romance?, talvez não, tudo indicava que não, porque haveria de existir traição quando não se ama?, haveria?, diga-me se haveria?

