quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Paralelepípedo

Um redemoinho erguendo-se sob a luz pálida do único candeeiro da ruela. Barulho de metais leves sendo arrastados pela rua de barro. Uma nuvem pouco espessa, erguendo-se cada vez mais alta. Tilintava e zunia. Sibilava, "o Tempo...o Tempo". Era o espírito da Saudade, choramingando para que o Tempo andasse mais devagar. Uma constelação no céu sorri, achando graça. As árvores zombam, seus galhos balançados pelo surdo Vento. Dois cachorros ladram, rosnando teologia cristã ante ao orixá. Um gato, aninhado em um telhado próximo, mia uma resposta sábia, evocando seus antigos servos egípcios. Saudade fica ali, gemendo, até que o Frio aparece. Ele está envolto em tecidos feitos de ar e névoa, lambendo a todos e roubando seus calores. O gato eriça os pelos e se esconde num beco. Os cachorros, corajosos, continuam a rosnar, mas se afastam, vagarosamente. O Vento, amante do Frio, aceita a cortesia. As árvores emudecem, não mais caçoam. O Frio congela as estrelas, que começam a morrer, lá ao longe, a muitos anos de distância, seu coração finalmente esgotado, "não deveríamos espiar aquele vão...", elas lamentam. A Lua acorda, suspira longamente, embriagada, e depois volta a dormir. Saudade, tremendo, pede ao Frio que congele seu coração, "...que pulsa quente das histórias muito antigas, de quando os homens ainda não sonhavam...", mas o Frio não responde, mudo como o amante Vento, a quem corteja. Toma Saudade nos braços e beija sua face, de olhos imaginários ocultos sob a cortina de xamã. Seu beijo, no entanto, conta a Saudade o segredo do seu nascimento, no amálgama do desenho de pedra não terminado e do pintor atravessado pelo dente ferino, da esfinge derrotada e do rei ermitão, da árvore nascida morta e do curumim nascido surdo, da linha de comando escrita às pressas e do ciborgue vertendo lágrimas digitais, dos dois sóis abandonados à própria sorte, dos Tempos, crianças aladas que apostam corrida, até que a Morte apague as luzes e lance seu beijo no vácuo que, como fênix das montanhas do planeta a que chamam Ficção, trata de recomeçar o todo. Saudade estremece diante do segredo terrível e adormece, o Sonhar invadindo suas memórias, transformando a dor em prazer diante da loucura, os binários segredos, cravejados nas partículas sem nome, gritados pelos neutrinos incompreendidos, inscritos à força nas ligações bioquímicas, estes segredos desfazendo-se no ar, consumidos pelo nitrogênio e pelo pó, assentados na terra pela Chuva, que molha, apenas molha, alheia a todos.

 
 
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