segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Anêmica

Talvez não seja porque ela parecia minguada, anêmica, nem porque soava contaminada. Aliás, diziam que se parecia com um daqueles filhos da radiação, todos apáticos e irremediavelmente fadados à morte. Lílian, quase vinte anos depois, ainda conseguiria olhar em meus olhos, enchendo a boca de injustiças e verdades populares para blasfemar contra Ísis. Ganhara esse nome mais pelo erro do cartório do que por escolha dos pais; seu medo era que justamente a chamassem como a deusa; mentia que se chamava Íris, escrevia o nome errado na escola e tivera de ouvir dezenas de vezes os conselhos da professorinha sobre o místico de seu nome. Aos quatorze anos, olhos pintados e lábios rachados, escreveu sua primeira carta suicida e fugiu dos pais. Filha do vento, por uns dois meses viveu num squatt perto do porto. Ao sair de casa, tomada da ira sem razão, ligara para Lílian, sem saber como se explicar nem racionalizar sua fuga. Foram juntas a uma festinha, Ísis aparentando ser muito mais velha, e lá ficou amiga da Esfinge e de Morfeus, dois punks namorados. Bebera e esticara a festa num armazém, mas Lílian detestara, aqui fede, Ísis, vamos que Marcinho vem buscar a gente ali na rodoviária. Ficou no squatt, bebendo vinho pobre e pintando os olhos de preto, mentindo se chamar Ida, ter vinte anos, universidade, namorado ciumento, tatuagem na boceta. Ao ser descoberta pelos pais, jurara insanidade e drogas como justificativa a fuga, culpando Esfinge, que no momento estava com o cu cheio de heroína, uma boneca de trapos. Talvez nada disso fosse motivo ou justificativa - sua mãe ouviria, com um pesar do tamanho de mundos, que alguns simplesmente já nascem podres. Depois de quatro meses de desnecessária reabilitação na casa da tia Olívia, em Friburgo, Ísis ouviu gritarias dos pais, que disseram, no afã da raiva, que ela ainda se mataria, que não tinha motivo para nada disso, que dissesse o que queria, que eu não entendo minha filha, está triste, é? está triste ou quer viajar? vamos a um psicólogo, você não precisa contar tudo pra gente, sua cretina, olha pra mim, sua cretina, é teu pai que te fala, não seja cínica, não vire os olhos, qual é teu problema, por que se transformou nisso, até ontem estava lendo aquele livro, até onde estava com o lápis da faber-castell pintando os desenhos, e agora parece uma puta, e colocava as mãos atrás da nuca, rodopiando na sala, e a mãe fungando no canto, minha filha, minha filha, ela repetia, tipo um mantra, só que não funcionava, e o que mais vamos fazer, sua desgraçada, mas não fala assim, Ivo, isso só vai afastar ainda mais, pois que afaste, afaste porque ela é dissimulada, tem treze anos, catorze, Ivo, e na certa já deu pra algum vagabundo daquele esgoto, não foi? não? E puxou o queixo dela, gotículas de saliva. E Ísis não pensava, não sabia, não tinha qualquer resposta e tinha todas. Duas gotas de suor escorrendo pelas têmporas, e ela engoliu a seco. O pai desculpou-se. A mãe pôs a mão no rosto, cobrindo-se com o véu da preocupação. Ísis fungou: eu sempre soube onde guardava a arma e as três balas; uma vez coloquei o cano do revólver dentro da boca e mirei para cima, e disparei, mas falhou. Ivo olhou para a esposa, vazio de qualquer palavra, e ela retribuiu o olhar, sem saber nada, sem entender absolutamente nada, só fungando e chorando baixinho, ambos agora nas mãos da pequena, escravos da suicida.
 
 
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