É do alto da minha evolução que admiro os demais. Não existe lirismo nem mesmo nas palavras de nosso tempo. Não existe poesia nas coisas que fazemos, nas máquinas que nos rodeiam, existe só as palavras estrangeiras e as telas iluminadas pela energia elétrica. Mesmo as máquinas já não são máquinas, são órgãos externos.
Tenho meus olhos cansados pela luz intensa. Leio durante o dia inteiro, leio as biografias dos escritores que nunca lerei, ouço as músicas nas vozes doces e meigas, vejo as fotos mais belas jamais tiradas. Perdemos a perfeição da unidade. Perdemos o belo, exposto ao mundo, rodopiando em um pedestal público. Nada mais é novo, nada mais é belo, porque tudo é novo e tudo é belo, demasiadamente novos e belos, minimalistas, inspirados pelo selvático.
A máquina, que antes zunia de leve, passa a fazer um barulho metálico. Clico em todos os xis e fecho qualquer janela iluminada. Fecho a biografia de clarice lispector na wikipedia, a música beta de cat power no youtube, ignoro a notificação vermelha do facebook, pauso o download do filme pirata de bergman que demorarei anos para concentrar-me o suficiente para assistir.
É dia e estou só. Sinto-me ainda mais triste porque sinto a solidão penetrada em minhas carnes tristes. Coço com as pontas das unhas do polegar o canto seco da ponta dos dedos indicadores, nervosamente. Há louça na pia, lembro das piadas na internet. Sinto-me derrotado quando tudo de lírico e substancial que consigo me recordar vem da plasticidade de algo iluminado por uma tela fina, aquecida pela energia das tomadas. Sou o alguém que questiona a influência da internet em nossas vidas, e então rio de tamanha tolice. Sento na soleira da porta e acendo um cigarro, que desce amargo. Fumo e sinto vontade de nada. Vontade de que aquela hora durasse para sempre. Até o que escreverei sobre essa hora é vazio, eu penso. Desperdiçarei o ineditismo das minhas carnes tristes com um texto vazio. Não haverá jogos de palavras nem rimas controversas no que escreverei. Haverá apenas o retrato de um momento, quando senti a solidão rangendo meus ossos.
Este texto é sobre a vergonha de ser superficial.
Sobre a vergonha de ouvir as mais belas palavras das bocas mais imundas.
Em março de dois mil e quarenta e sete, ainda vivo, estarei sentado sobre uma escrivaninha, no completo escuro, temendo qualquer luz. Meu braço vibrará, saberei que minha bateria está acabando. Retirarei os circuitos, medrosamente. No completo escuro, a geração da luz zombando de mim, no completo escuro eu chorarei pela primeira vez pela perda de qualquer possibilidade de pararmos de legar às máquinas o poder sobre nós.
Em 19 de setembro de dois mil e oitenta e quatro, senão eu qualquer um, estarei de olhos vendados, inebriado pela simulação. O humanoide que cuida de minha imersão tocará meus dedos de leve, e sussurrará "Também estamos vivos, também somos vivos...".
