terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Cruzamento

A sentia cada vez mais próxima. Volitando, ao redor de si. Às vezes como um vento, que enlaça o corpo e convida, fazendo o pó cocegar os lóbulos macios. Em março, há quase um ano, percebia como uma perseguição sem nome, o murmúrio de um murmúrio, algo longe, vindo de muito longe, interferindo em suas sinapses ao empreender uma terrível viagem pelas galáxias, tropeçando em asteróides de coração congelado e zunindo sob a órbita de planetas dormidos. Conhecera Ficção - imaginava que assim o fosse - o planeta das nuvens pálidas e do silêncio, e por lá - decerto - permaneceu por muitos séculos, seduzindo os deuses exilados e entediados. Eles gemiam de ódio, sucumbindo aos seus dotes, inevitavelmente, como se tivessem, eles mesmos, sublimado seu poder. Enfrentara a aspereza da solidão e das tempestades de poeira, temendo ser recebida com desprezo ou desilusão. Temia, talvez, não chegar a tempo, encontrando um replicante em seu lugar, frustrava a ideia de perder. Pintava os olhos todas as noites com o néctar negro de flores, sob a luz das três luas, ria-se e embebedava-se com o líquido de O'jeag, que fora o preço recebido para ir embora de 14 De Agosto. Este planeta era aquele, o das histórias do lado de lá, o que orbitava a estrela romântica, a mesma que chorara plasma e queimara seus súditos ao tentar chegar mais perto deles, perdidamente apaixonada. Sua presença, aos poucos tensa, foi se cristalizando em alguns sinais, como uma mensagem não entendida e impregnada do ruído branco. Ao regressar de Montevidéu, depois de amar Pablo, perdera-se no aeroporto de Florianópolis, não conseguindo entender os sinais dos painéis luminosos que deveriam mostrar sua conexão. Súbito, como um choque de voltagem baixa, sentira-se invisível, em pé no meio do saguão. Emudecera, temendo que sua voz desencadeasse algo. Vira um homem, de fios prateados tomando forma, um óculos caindo pelo nariz, folheando uma revista. Chegou bem perto e sibilou em seu ouvido "O tempo...?" Não houve resposta, e percebeu sua própria matéria de fato leve, como se tivesse compreendido o vazio monumental que todos ignoramos. Uma garotinha, de cabelos curtos e uma mancha azulada no rosto, olhava a cena e indiscretamente sorria, achando graça. Balançou a cabeça, no que ela retribuiu, caindo na gargalhada. "Você vai embora e nem sabe pra onde, né?". Não respondeu, não entendera o contexto, era como se dormisse e os olhos lutassem para permanecer abertos, no estranho limiar entre o sensível e o inconsciente, entre a sintaxe e a semântica. Esquecia dos sussurros enquanto perdia-se entre o lugar e o não-lugar. Passou a entrar e sair de todas as portas, procurando o portão para o mundo em que era visível novamente. Parecia bastante sensato pensar assim naquele momento. A garotinha ria tanto que colocava as mãos na barriga, apertando-a com as mãos para afastar a dor; jogava a cabeça para trás e para frente, alguém ralhando com seus "Conto pra teu pai". Depois de atravessar a última porta que vira - a de uma casinha de veraneio que uma senhora de mãos veludas desenhava na terceira capa de um livro de culinária, sentia suas carnes impregnadas pelo ridículo. Sentou-se no chão, Apatia lhe fazendo companhia. A garotinha sentiu pena daquela criatura perdida - todos sentiríamos - e tocou a ponta de seu nariz, "Atravesse minhas pupilas, mas cuidado porque lá dentro é um breu, e só vê a luz quem está do lado de fora". Enquanto isso acontecia, ela se banhava no vácuo, sentindo os poros limpos pelo nada, e anotando mentalmente a pergunta que faria a Delírio assim que a encontrasse. Vislumbrava nossa galáxia, que era um bebezinho correndo e habilmente se desviando dos outros irmãos mais velhos. Cheirava a leite, o que era realmente engraçado e perspicaz de sua parte. Vega sorria sob os olhos repreendedores das estrelas que não sei o nome, e mal as vejo, porque estão longe de nossa rede neural construída no quadrante do planeta. Esbarrou em uma série de átomos desgarrados e anárquicos, mas decidira não mais parar para ouvir suas histórias, pois sentia-se levemente atrasada. Encontraria quem procurava e depois correria para assistir ao fim de Hediondo, já presumindo o trabalho dobrado de explicar tudo a eles. Encantou-se com a vida de G, o planeta apelidado por ela assim porque ainda não decifrara a fórmula da sua língua: eles agora já não guerreavam, não discutiam, eles sonhavam. Aprenderam que o Sonhar é grande o suficiente para todos os seus sonhos, e que o Lorde os acolhe a todos até quando seus espíritos se esquecerem de tudo. Enquanto retomava as forças que perdera, a garotinha lhe dava tchau e desejava boa sorte, "Ela é realmente espirituosa, você vai ver", ao passo que era arrastada por mãos maiores, e repetia "espirituosa", baixinho. Ela, nesse instante, decidira permanecer na pequena colônia do lado oculto de Marte, navegando nos rios mortos com um barco de areia. Chovia no chão vermelho que, a essa época, era vermelho por causa das flores de pedra. Assistiu a muitas histórias enquanto ficou lá, via o pontinho azul esverdeado cintilar, como se piscasse, "Vem...vem". Vira o tempo rebolar no espaço, distorcendo o tangível e fundindo moléculas. Achou o Sol um pouco soberbo, não costumava ser assim antes, mas entendeu que era só resignação por ter sabido que seu destino também era morrer de amor por aquele barro moldado. A hora chegou num dia calmo de verão, o chão escaldando seus pés até ela se lembrar que aquilo era tão imaturo da sua parte, deixar-se tomar por algo pequeno e primitivo quanto o calor. O segundo que veio alertá-la tinha as mãos cheias de doces, enchendo a boca e gruturando qualquer coisa que terminava em "...e dorme, tá dormindo!". Ela levantou-se do chão e veio até nossa órbita, achando os rios atmosféricos deveras poéticos. Era dia e nada lhe dava mais satisfação que deixar a luz forte ofuscar seus olhos, que se apertavam e enchiam sua visão de rosa. Depois anoiteceu e, repentina essa noite, assustou com sua escuridão azulada os olhos adormecidos. Poucas coisas faziam sentido neste momento, poucos amores valiam a pena, ou conversas jogadas fora. Do alto de sua janela, via o mundo alheio, preocupado com seus próprios problemas. Não havia medo do que viria, ou espanto pela gloriosa conclusão a que chegara. Seus cabelos dançavam, um copo bebido sobre a mesa, Clarice dormindo no quarto, o peito nu como uma melodia aguardando a invenção de um instrumento. Chamava sua amante de Brisa, porque se movia como se pairasse alguns milímetros do chão, totalmente dona de sua própria existência. Beijaria seus lábios, temendo sua pele acordar a outra pele? O toque que não foi dado, parecia bastante sólido como lembrança. Ela então beijou suas pálpebras, não assustando ou criando dúvida, mas lhe contando os segredos que sempre seriam esquecidos. O vento, sempre ele, o vento e suas personas, a brisa, a vastidão e a névoa, agora faziam a história ser entendida. O repentino conhecimento do que esquecera fez seu corpo amar, cada célula sorrindo. Ela também lhe sorriu, "Vim de longe porque transbordo de amor", ela disse. "Vim de longe para provar meu amor". "Vem, vim te buscar, vem, benzinho, vem!". E foi, o toque não dado pairando sua consciência, o toque não dado, o toque...
 
 
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